A ENCENAÇÃO DE PORTAS E SÓCRATES
Na política ter ideias contra a corrente é um exercício disponível para poucos. E mesmo que mais tarde se venha a perceber que esses poucos tinham razão, os pretorianos do consenso jamais admitem os seus erros. A sua mediania impede – os de assumir falhas e é – lhes mais fácil encontrar justificação externa para os resultados, do que reconhecer culpa interna para eles.
Com a devida vénia ao SOL
Foi assim com a descolonização, foi assim com a política económica seguida após entrada na CEE, foi assim com o valor nominal dado ao euro quando abandonamos o escudo, foi assim com as sucessivas reformas educativas, foi assim com a progressiva descredibilização do sistema judicial e foi assim com a manutenção de um Estado que gasta o que não tem. Tudo aconteceu, mas ninguém tem responsabilidades. Nem aqueles que juraram a pés juntos estarmos no rumo certo e puseram a sua assinatura em tudo o que de negativo foi feito.
Agora, a propósito do próximo Orçamento de Estado, vemos o que já vimos e nada do que ouvimos é novo. Quem ao longo de anos nos empurrou para o fundo do poço quer um orçamento a qualquer preço e os argumentos são inevitavelmente os de sempre. Estabilidade, crise, imposição das autoridades estrangeiras. A pontualidade de algumas medidas e a vacuidade de algumas declarações tornam – se assim mais relevantes, do que a assumpção de uma clara ruptura. Uma ruptura com o modelo que já provou estar errado e que será mantido não para salvar o País, mas para proteger os grupos que há muito nos dirigem. Vai o Estado emagrecer, para dar força à sociedade civil? Não vai. Vai o governo abandonar os projectos megalómanos que anunciou? Não vai! Vamos ter uma nova estratégia de desenvolvimento económico? Não vamos! Ligeiras mudanças na aparência, não implicam profunda alteração da realidade. E esta má realidade será mantida com o apoio do PSD e do CDS. Embora não surpreendente, é uma triste notícia.
Disse Paulo Portas que a sua abstenção, adjectivada de construtiva, será em nome do patriotismo. Pelo caminho deixou cair as bandeiras que prometeu inegociáveis. Uma vez mais se demonstrou que Portas dá tanto valor às causas que diz defender, como à primeira camisa que vestiu. Não me espanta. O que o move não é a Nação, não são os pobres, tão pouco os agricultores ou os pequenos empresários. O que para ele é importante é a proximidade do poder, a gestão de certos silêncios, as contrapartidas pessoais ou a negociação de lugares para um punhado de seguidores. Encontrou em S. Bento um parceiro ideal para as suas mise en scène e de caminho hipotecou ainda mais a alma ao diabo. Com a já previsível abstenção do PSD, os seus votos não eram necessários para que o orçamento fosse aprovado e a afirmação séria, sólida, diferente, de uma política alternativa tinha o caminho aberto. Só que isso não podia acontecer. Portas está demasiado preso a Sócrates, para poder com total liberdade e verdadeira independência ser oposição. Dias e dias de reunião, bem como encontros de urgência com o primeiro – ministro, serviram apenas para alimentar o espectáculo há muito planeado. Nisso, Portas é hábil como ninguém e o orçamento era um mero pretexto. Ganhou Sócrates, ganhou Portas, hão – de ganhar alguns dos seus amigos. Perdeu Portugal!
Manuel Monteiro
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1 resposta ao artigo “A ENCENAÇÃO DE PORTAS E SÓCRATES”



O povo português continua a ser alvo de uma hipnotização em massa pelos media afectos e/ou dominados pelo poder político.
Saúdo mais uma vez o Dr. Manuel Monteiro pela sua perseverança.
Um abraço